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Prelúdio de uma Melancolia

Saudação aos Corvos que nos cercam nesta noite lúgubre…

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Em decúbito, rememorava minha inútil vida. Cada pensamento, uma nuvem negra que formara aos poucos uma cumulonimbus em minha mente. Tamanha era a nuvem a qual raios múltiplos prenunciavam a grande tempestade de emoções e esta sem demora desbravou em meus olhos melancólicos; percorreu meu esquálido rosto. Oh, sim. São apenas minhas lágrimas de desalento, dizem os néscios!

E mesmo eu, morando em trevas imperscrutáveis, nunca fui como aqueles homens de pouca fé, jamais estive conluiada com tais atos do diabo. Então porque cada sopro de vida em mim é um cálice de amargura? O maior mal que fiz foi somente ao meu próprio ser. Seria uma maldição de vidas anteriores? Decerto, pois ainda me há sanidade para não profanar a Justiça dos Deuses. Que Leis eu feri, meu Lorde? Por que eu não tenho tua Graça, meu Pai Saturno? O que me falta…

Dormi em meio à lamúrias e prantos, recitando cantos de episódios fúnebres da vida. É o meu fim. Morrer de desgosto, fadada a solidão. Em turva melancolia sonhando, corvos na paisagem chuvosa ao fundo deslumbrante da janela aberta. E repentinamente um corvo adentrou em meu quarto, repousando em minha cama e eu pensei – finalmente a dor cessou – o corvo azulado e úmido transfigurou-se em anjo negro. Viera buscar-me. E fitava-me portando uma lamparina, sentado aos meus pés azulados de morte.

Pintura de Evelyn de Morgan

E o magnífico Anjo, estranhamente não empunhava a temível gadanha. Tocou em minha fronte, com muita tristeza e compaixão; assim minha Alma planou em vôo noturno e profundo como uma pena que cai ao Abismo, em direção ao Vazio. Abneguei todos os meus medos, dancei com a morte. Quão bela és! Quem dera tê-la conhecido antes. A Morte era como o vento, que soprara-me entre as ruínas de meu velho mundo, meu Castelo. Não! Não era o universo externo, era meu amado e soturno mundo interior. Inúmeros templos abandonados, relíquias, livros e muitos outros tesouros soterrados ao pó. Árvores secas e uma caverna repleta de morcegos bailando em plena lua minguante. Este era o resumo de uma obra em pedaços: minha triste vida.

O Anjo apareceu dentre sombras cor violeta, em frente ao castelo, agora com a gadanha. Aproximou-se de meu vulto fantasmagórico em passos inebriantes e clamou: “Ancião devorador, o Senhor do Tempo, o Velho Saturno! Tu és a Espada da Eternidade entre Céu e Terra! Em tua mão, está a colheita da vida “. E eu, como alma vagante, ajoelhei-me ao ouvir o nome terrivelmente divino de meu Pai: — Perdão, meu Lorde. Estive ciente de que falhei em tua Arte Sagrada. Sim, a perdição me tomou nesta vida humana, em rios de vinho e letargia. Desgostei do mundo, não soube viver em solitude. Permita-me morar em suas esferas do Subterrâneo.

Mal terminara de proferir tais palavras e o Anjo fez-me levantar: Ouça-me bem, discípula, e escolha a foice com que irá trabalhar. Sou teu amo eterno… e beijou-me solenemente. Assim acordei, estupefata do sonho. Minha pele com aspecto de cadáver se ruborizava novamente. Ouvi o bater de asas, mas muito tardio para vê-lo.

Evelyn Sathy.

Comentários

  1. Muito bom o seu conto, existem leitores carentes de literatura gótica.

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  2. ._Na plenitude da melancolia, onde estou?

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    Respostas
    1. Provavelmente dentro de um esquife que você mesmo fabricou.
      Não tenhamos uma overdose de melancolia, apenas pequenos tragos.

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  3. O que mais gostei neste conto foi sua melancolia; muito bonita, como a luz pálida das estrelas, fria e refulgente. Encontrar a nós mesmos em um extenso universo enclausurado, interno, e aceitar tudo isso - pesado -, para assim tornar aquilo que foi fraqueza em força. Foi o que senti lendo-o. A bela tristeza escrita é emocionante em seu pico, diante dos fúnebres episódios da vida.

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